AQUECENDO PARA O PRÓXIMO ENCONTRO

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O XVI Encontro da Rede Brasileira está a caminho. Em maio, os Nativos Terra Rasgada, da cidade de Sorocaba/SP, vão receber articuladores e articuladoras de todo o país durante uma semana de atividades artísticas e políticas, onde vamos compartilhar um pouco do que cada artista vivencia em sua cidade, em seu estado, desde a luta por políticas públicas até o uso do espaço compartilhado como meio de vivência, sobrevivência e formação política.

 

E para colaborar com o debate, seguem algumas reflexões que vale a pena ler.

Boa leitura!!

 

Cartas Lançadas… O Olhar Político da Rede Brasileira de Teatro de Rua

por Luiz Carlos Checcia

para-postagem

Desde o Manifesto do Partido Comunista, escrito por Marx e Engels, a forma-manifesto tornou-se um veículo comum e mesmo necessário para expressar ideias, posicionamento, estéticas. É interessante notar que, a despeito de ainda(!!!) existirem artistas, grupos e coletivos que dizem: “melhor não falarmos de política, apenas de estética”, são justamente agrupamentos de artistas e de militantes políticos que mais fazem uso dos manifestos. Provavelmente isso aconteça, justamente, porque a arte e a política sejam contrapartes de um mesmo movimento: a atuação do indivíduo em sua sociedade. A participação na vida social é, ao mesmo tempo uma ação política, pois interfere na vida coletiva de maneira objetiva, e é uma ação estética, já que promove um embate no campo simbólico, visando modificar ou conservar percepções coletivas subjetivas, ou seja, atua também sobre a subjetividade de indivíduos, grupos e classes. Os manifestos podem ter vários nomes: cartas de princípios, jornadas, teses, proposições etc, mas, de fato, são manifestos…

As cartas da Rede Brasileira de Teatro de Rua, a RBTR, são seus manifestos políticos e estéticos.

A Rede Brasileira de Teatro de Rua, desde a sua formação, em março de 2007, tem por prática tornar público as suas Cartas, redigidas ao final de cada encontro nacional. Por meio das cartas da RBTR é possível perceber como esse coletivo de expressão nacional, plural e diverso tem construído um pensamento dissonante à ordem do dia. Em tempos em que o novo-velho ministro da Cultura leva para seu gabinete o Fora do Eixo, um coletivo com longo histórico de precarização de trabalhado (e diversos outros problemas…), enquanto acena para a possibilidade de promover a privatização do serviço público por meio das chamadas organizações sociais, a Rede Brasileira de Teatro de Rua é, atualmente, o único coletivo nacional de teatro que tem como ponto de partida a defesa intransigente do financiamento público direto à produção artística e cultural, e o fim incondicional à privatização e mercantilização de obras e tradições. Isso faz da Rede um ponto de resistência e de luta ao movimento neoliberal no segmento cultural; é por isso que, a despeito de ser um coletivo de recorte bem específico, o teatro de rua, a RBTR tem acolhido artistas de outras formas teatrais e se mantêm aberta para artistas de outras linguagens. Além disso, a RBTR tem buscado diálogo com outros movimentos e coletivos, ampliando sua rede de solidariedade.

Ainda que esse posicionamento político da Rede Brasileira de Teatro de Rua estivesse expresso em sua primeira carta, a análise do conjunto de cartas publicizadas pela Rede permite acompanhar o seus aprofundamento e perceber seu amadurecimento político e mesmo sua radicalização ideológica.

Grosso modo, as cartas da RBTR apresentam um formato já consagrada ao longo dos encontros e que pode ser dividida em: Cabeçalho, onde se encontra um texto de apresentação da rede, normalmente repetido em todas as cartas; bandeiras de luta, que expressam seus objetivos distantes, seu horizonte de luta; demandas nacionais, onde se encontram as exigências por políticas públicas específicas, em âmbito federal; demandas locais relativas à cidade ou região em que ocorre o encontro; e, por fim, notas de repúdio. Embora esse formato não tenha surgido de maneira definitiva desde o primeiro encontro, ele pouco mudou desde lá; no entanto, é significativo que seu conteúdo evoluiu em pouco tempo de uma leitura crítica porém relativamente abstrata da sociedade para uma leitura mais concreta e com um recorte de classe mais acentuado, ainda que não faça referência, de forma textual, nem ao conceito de classe, nem ao de luta de classes, tão pouco ao de consciência de classe. É nítido que, enquanto em sua primeira carta, a Carta de Salvador, apresentava como bandeira de luta uma proposição limitada em termos políticos, qual seja

“A missão da Rede Brasileira de Teatro de Rua é lutar por políticas públicas de cultura com investimento direto do estado em todas as instâncias: município, estado e união (…)”

Em seu quinto encontro, ocorrido em abril de 2009, e cujas demandas estão registradas na Carta da Aldeia de Arcozelo-RJ, torna-se primeira bandeira da Rede Brasileira de Teatro de Rua

“a luta pela possibilidade de uma nova ordem, por um mundo socialmente mais justo.”

Que, no encontro seguinte, em setembro de 2009, na cidade de Rio Branco-AC, é modificada e ampliada para

“a luta pela possibilidade de uma nova ordem, por um mundo socialmente justo e igualitário.”

E, por fim, no décimo encontro, ocorrido na cidade de Santos, SP, recebe o formato ainda em vigor, que é

“lutar por um mundo socialmente justo e igualitário que respeite a diversidade.”

A princípio, o conceito de justiça expresso na Carta de Arcozelo é ambíguo: “mais justo” é muito diferente de “justo”. justiça não pressupõe quantificações: ou se é justo ou não é. Todavia, ainda que naquela carta estivesse apenas grafada a palavra “justo”, mas sem o reconhecimento da desigualdade que fratura nossa sociedade, essa demanda ainda soaria abstrata e ambígua; no entanto, quando passa-se a grafar também o complemento “ justo e igualitário”, torna-se explicito a condição de desigualdade e opressão a que se encontra submetida a sociedade brasileira. Ainda assim, há uma limitação, já que o pacto igualitário não define quem são os iguais e quais são os “não-iguais”, situação que se resolve com o acréscimo da palavra “diversidade”; assim se define a qualidade da relação, que é de justiça, em que nível em que ela se realiza, que é o da igualdade entre todas as pessoas e, por fim, define quem está incluído nesse consenso: o conjunto da diversidade dos grupos e segmentos que formam a sociedade. Ou seja, a justiça não pode ser efetivada se não vier acompanhada por um “pacote” que envolve a igualdade em todos os níveis: o da política, o da economia, o da pluralidade étnica, da orientações de gênero e da diversidade cultural.

Retomando a Carta de Arcozelo, é nela em que, pela primeira vez, a RBTR faz menção ao teatro de rua como atividade antagônica ao mercado cultural. Embora já tivesse como demanda a extinção de qualquer forma de financiamento público via renúncia fiscal e exigindo, em contraponto, financiamento público direto para a produção cultural – e percebido sua arte como forma de resistência cultural ao mundo do capital desde o seu quarto encontro, realizado em São Paulo-SP, em novembro de 2008, – é em Arcozelo que se iniciou o processo de radicalização do discurso político da RBTR, que passou da ambígua postura altermundista para a defesa da transformação radical da sociedade, ampliando seus debates para outras esferas da sociedade, cuja experiência mais completa neste sentido ocorreu no décimo quinto encontro, no Hotel da Loucura, no Rio de Janeiro, ocasião em que se foram discutidas as relações entre as artes públicas e a saúde pública.

A culminância do desenvolvimento da radicalidade do discurso político da RBTR, até o presente momento, está no conceito de Arte Pública. Ainda em desenvolvimento, o conceito de Arte Pública remete à ideia de que a arte não pode ser submetida à lógica do capital, ou seja, não pode ser convertida em mercadoria. A única forma de evitar, ainda que parcialmente, esse processo de rebaixamento da arte ao capital é por meio de uma estrutura de políticas públicas que deem conta não apenas de financiar a sua realização, mas também a sua circulação sem cobranças de quaisquer formas de ingressos, bem como garantir a realização de contrapartidas pertinentes e significativas. A ideia de arte pública surge com o histórico grupo Tá Na Rua, coordenado pelo diretor e ator Amir Haddad, e começa a ganhar corpo nas cartas da Rede Brasileira de Teatro de Rua a partir do seu décimo primeiro encontro, na cidade de João Pessoa-PB, em setembro de 2012. No encontro seguinte, em Taguatinga-DF, ocorrido em fevereiro de 2013, a ideia de Arte Pública já permeia toda a carta do encontro, pontuando as suas bandeiras e principais demandas.

Embora o sentido das cartas da RBTR seja o de amadurecimento político e de construção de um espírito crítico mais denso e comprometido, é possível encontrar alguns retrocessos, sendo, o mais significativo deles a não manutenção do seguinte trecho, publicado apenas em sua primeira carta

“O papel do integrante é o de ampliar a Rede, através da criação de movimentos regionais de teatro de rua e artes afins (…)”

a expressão “artes afins”, não apareceu, até o momento, em mais nenhuma outra carta da Rede Brasileira de Teatro de Rua, sendo substituída por referências diretas a movimentos de teatro de rua. Embora pareça uma questão menor, cada carta é uma declaração de compromissos: o momento de elaboração de cara uma delas envolve debates, reflexões e negociações; ao final, o resultado é um documento que precisa ser realizado, na medida do possível, por todas as pessoas que formam a RBTR. A exclusão do trecho citado retira, dessas pessoas o compromisso de participar de outros movimentos e coletivos que, não sendo de teatro de rua, dialoga com sua realidade e expectativas. Pelo poder de mobilização e pela própria experiência do fazer teatral nas ruas, campos e florestas, manter esse compromissos com os demais movimentos afins é um ato de solidariedade de classe.

Embora a Rede Brasileira de Teatro de Rua não tenha expressado até o presente momento um discurso revolucionário, como ocorre com o Movimento de Teatro de Rua de São Paulo, por exemplo, considerado um dos mais críticos e militantes do Brasil, a RBTR tem tornado suas proposições mais tensas em relação ao mercado capitalista da cultura, e tem buscado ampliar suas relações com outros movimentos; além disso, seu caráter de rede impede um processo de centralização, fazendo com que os grupos e os coletivos de grupos que a compõem tenham comportamentos mais radicais em algumas regiões, e mais moderados em outras, de acordo com as conjunturas e possibilidades locais. Ainda assim, a Rede Brasileira de Teatro de Rua busca construir, a cada encontro, um consenso interno cada vez mais conscientes das pautas de luta da sociedade brasileira, transformando sua posição de arte contra-hegemônica em uma alavanca ideológica capaz de trazer para o campo mais a esquerda os seus setores mais moderados.

Afinal, para quem segue na contramão da práxis privatista/patriarcal/mercantilista/conservadora hoje dominante no país, só há um lado a seguir.

Extraído do site: https://criticacena.wordpress.com/2015/02/18/cartas-lancadas/

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