Tão Perto, Tão Longe: O Teatro de Grupo no Brasil e Suas Divergências Atuais

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ilustrac3a7c3a3opor Luiz Carlos Checchia (Companhia Teatro dos Ventos, Osasco/SP e Movimento de Teatro de Rua de São Paulo)

É comum ouvir pessoas diversas dizendo que o teatro de grupo é a linguagem artística mais organizada do país. Talvez isso esteja perto da verdade, mas organização não significa, necessariamente, unidade. Atualmente, a organização do teatro de grupo no Brasil está segmentada em dois grandes projetos políticos para o teatro nacional, e a impossibilidade de uni-los numa plataforma única tem rasgado uma vala cada vez mais larga e profunda entre os diversos grupos nacionais. Um desses projetos, sustentado pelos grupos mais próximos ao atual governo federal, ainda que com algum teor crítico, é formado por grupos que conseguem resignar-se com instrumentos e políticas como leis de incentivo fiscal e a chamada economia criativa, ou ainda que participam ou apoiam iniciativa como a do coletivo Fora do Eixo. O outro projeto apresenta-se mais crítico aos caminhos tomados pelo governo  federal, que não abre mão do embate pelo fim da renúncia fiscal em todas as suas modalidades, luta pela chamada arte pública e acredita que o Estado deve financiar, via instrumentos transparentes, democráticos e diretos, a produção teatral  responsável e socialmente comprometida.

Recentemente, dois grandes encontros nacionais aprofundaram essa diferença e marcaram suas posições, um deles foi o II Congresso Brasileiro de Teatro, o CBT, entre os dias 29 e 31 de agosto de 2014, na bela cidade de Florianópolis, SC. O CBT apresentou, desde os seus critérios de participação até a publicação de sua carta (Carta de Florianópolis), sua afinidade com o primeiro grande projeto político para o teatro descrito no parágrafo acima. O XV Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua, a RBTR, entre os dias 01 a 07 de setembro, na belíssima cidade do Rio de Janeiro, manteve e aprofundou em seu documento final (Carta do Hotel da Loucura/Rio de Janeiro) o seu posicionamento mais crítico e radical em relação às atuais políticas públicas para o segmento. É importante destacar que a RBTR, apesar de ser um coletivo cuja centralidade é o teatro de rua, abriga grupos de teatro que também criam para espaços fechados, e atualmente abre-se para diálogo com outros setores da sociedade, daí o encontro no Rio de Janeiro também discutir o diálogo entre a Arte pública e a Saúde pública. Numa primeira leitura em ambas as cartas já é possível ver diferenças entre algumas proposituras dos participantes dos dois encontros: a Carta de Florianópolis faz a crítica ao projeto de lei PROCULTURA (uma espécie de reformulação da Lei Rouanet, ou seja, transferência para a iniciativa privada da gestão e de dinheiro públicos voltados para a cultura), mas saúda a inclusão do Prêmio Teatro Brasileiro (investimento público e direto, portante, sem a intermediação da iniciativa privada, em projetos teatrais por todo o país) em seu texto, afinal, seria a garantia de aprovação do Prêmio; já a RBTR não aceita a existência de nenhum mecanismo de financiamento público ao teatro via renúncia fiscal, ou seja, todo e qualquer financiamento público deve ser direto, transparente e democrático. Embora não fale especificamente no Prêmio Teatro Brasileiro, a RBTR defende a existência de financiamentos públicos e diretos para diversos segmentos artísticos e culturais. Há alguns outros pontos de divergência entre os dois agrupamentos, todavia, a aceitação da existência da renúncia fiscal é a maior e mais aguda entre eles.

 É notório que a RBTR parece avançar e radicalizar suas propostas para além dos limites do mundo do teatro: a Rede Brasileira de Teatro de Rua discute não apenas propostas para a prática teatral, tentando encaixá-la na realidade que está posta, mas discute a sociedade em suas diversas dimensões, busca criticá-la e propõe alternativa de transformação. Já o CBT apresenta um debate mais limitado e fechado, o que não é pouco quando pensamos o quanto o teatro brasileiro está defasado em relação às possibilidades e modelos de políticas públicas hoje existentes. Em algum ponto, uma das visões teria que ceder para o estabelecimento de um diálogo pleno: ou a RBTR limitar-se, apequenar-se em suas propostas, ou os grupos que estiveram presentes ao último CBT avançarem em suas resoluções. As perguntas que ficam é: vale a pena a Rede Brasileira de Teatro de Rua abrir mão do desenvolvimento de uma consciência que envolve tanto as questões de classes quanto de reconhecimento de diversas urgências da sociedade para sagrar a união entre os grupos de teatro em nível nacional? É possível aos grupos que se encontraram em Florianópolis e concordaram com seu documento final avançarem em suas propostas e aceitarem uma luta maior que o teatro, mas que, ao fim e ao cabo, colocam o teatro em posição crítica e atuante no mundo em que está inserido?

Não nos parece coerente a forma passiva, ainda que com alguns muxoxos de canto de boca, com que diversos grupos aceitam as leis de incentivo fiscal, é como estar numa fila de abate e acreditar que escapará dela dando o lugar para quem está atrás de você: pode-se protelar a hora do próprio abate, mas não escapar dele. Isso só seria possível se todo o abatedouro fosse desfeito; o abatedouro de que falamos aqui chama-se mercado da cultura. A união entre os grupos de teatro em nível nacional seria um ganho de forças para todos os grupos e artistas, afinal, o inimigo não está entre nós… mas isso não pode acontecer a qualquer custo: é preciso que a questão mercado cultural para o teatro seja profundamente debatida, de forma clara e isenta, e que suas contradições insolúveis sejam percebidas e compreendidas. É preciso ampliar também o ainda insipiente debate acerca da chamada arte pública, defendida pela RBTR e outros segmentos artísticos, mas que permanece um conceito obscuro e confuso para muita gente. Talvez expor as contradições do mercado cultural e as possibilidades da arte pública colabore para que muitos artistas e grupos percebam que algumas distâncias não são tão intransponíveis.

Avançar em propostas para o Teatro de Grupo é possível, com ou sem a unidade nacional, mas com ela as conquistas seriam bem mais interessantes: há aproximações possíveis entre demandas expressas nas cartas de Florianópolis e do Hotel da Loucura que podem, no futuro, tornarem-se espaços de diálogos entre as duas visões acerca do teatro nacional. Mas é fato que qualquer forma de unidade só seria possível se os todos os grupos passarem a ter uma postura mais independente em relação às propostas governamentais. Ainda há aqueles que dizem que é um gesto utópico acreditar em tal independência e que manter tal postura só retardaria o processo de conquistas, a essas pessoas recordamos que a espera pelo Prêmio Teatro Brasileiro já é de mais de uma década, e talvez mais outra década venha pela frente.

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A ilustração usada neste post é de Olly Moss, e foi salva de seu site http://ollymoss.com/

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