LUA BARBOSA – Assassinato não é acidente!

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Considerações sobre a morte em um tempo obscuro, a respeito de Lua Barbosa

Vivemos tempos novos e, estranhamente, velhos. Não há dúvidas que mudanças ocorreram: milhões de pessoas saíram das margens de pobreza, os menos favorecidos passaram a ter acesso às cadeiras universitárias, boa parte da população passou a possuir bens de consumo antes inimagináveis. Tudo isso é novo, sem dúvida. Todavia, o novo embala a velha ordem, o velho sistema de exploração e expropriação; no fundo, favorece desfavorecendo: à falta de direitos promove-se o consumo; à falta de serviços públicos dignos e amplos, incentiva-se o consumo; à desmobilização da classe trabalhadora, organiza-se o consumo. Assim, de classe lutadora nos tornamos consumidores, não cidadãos e cidadãs nem sujeitos de direitos, apenas consumidores. Evidentemente que tais mudanças não ocorrem sem a reconfiguração da subjetividade: nos tornarmos cada vez mais conservadores, mais inseguros, mais atomizados e cada vez mais violentos. Não é por outro motivo que assistimos, atônitos, a escalada da industrialização e militarização da vida em intensidade e velocidade descomunais, capazes de incrementar em poucas semanas as táticas de repressão à população (ver link), bem como tornarmo-nos incentivadores e vítimas potenciais de linchamentos e justiçamentos: práticas de tempos obscuros. Banalidade do absurdo e naturalização da agressão.

É justamente essa violência, cada vez maior e mais presente, que vitimou a querida amiga e camarada Lua Barbosa. No dia 27 de junho, Lua foi vítima, por um lado, da ação individual do cabo da polícia militar do Estado de São Paulo Marcelo Coelho, que em um procedimento corriqueiro de controle de trânsito agiu de forma completamente questionável (ver link) disparando contra ela, que estava na garupa da moto de seu companheiro, sem oferecer riscos ao policial ou qualquer outra pessoa. Por outro lado, Lua foi vítima de uma conjuntura política e econômica que tem transformado nosso país, sem dúvidas, melhorando a vida de muitas pessoas – ainda que dentro dos marcos do capitalismo, e talvez por isso – mas a um custo social profundo e sem precedentes.

Assim, nossa querida Lua é duplamente vítima: da forma truculenta como a Polícia Militar trata cidadãos e cidadãs cotidianamente, e ainda, vítima de uma nova organização social que tem desenvolvido o capital às custas da fragmentação de qualquer princípio de solidariedade e cooperação, valorizando o individualismo, o conservadorismo e a violência. A Lua era uma artista jovem, talentosa, que havia escolhido fazer a arte popular, a arte próxima das pessoas simples, trabalhadoras, a arte que chamamos de pública. Ao se formar em Teatro na cidade de Curitiba (PR), não escolheu atuar em grandes centros urbanos, na arte comercial e convencional, antes, optou por ir para Presidente Prudente (interior de São Paulo), integrar o Grupo de Circo e Teatro de Rua Os Mamatchas, ao lado de Camila Peral e Bruno Palácio, e com eles lutar junto à Federação Prudentina de Teatro e Artes Integradas, a FPTAI. Luta difícil, árdua, feita de muito suor, muitas lágrimas, muitos sorrisos também, acreditando que um novo mundo, mais solidário e parceiro se constrói no hoje. Infelizmente, dela foi tirada a oportunidade de continuar lutando, de construir sua arte, seu legado, sua história. Um crime que afeta a todos e todas nós, privados que fomos de seu talento, de seu desenvolvimento e de sua sensibilidade. Sorridente, parceira e divertida, Lua deixará um imenso vazio em nossas vidas e em nossa arte.

Duplamente vítima, Lua Barbosa se junta a milhares de outras vítimas que tiveram suas vidas abruptamente interrompidas por esse Estado que não é nosso e que não atende aos nossos interesses, cujos princípios não condizem com aquilo que nos move e nos preenche.

Aos pedidos por justiça que há tanto tempo bradamos, juntamos mais um: justiça pela morte de nossa Lua.

Assassinato não é acidente!

Por Luiz C. Checchia

Companhia Teatro dos Ventos – Osasco/SP

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